VAI ALTA A NOITE POR BEJA-Azinhal Abelho, 1949
« 01-10-2006
Nesta noite de S. Pedro é o despique dos corais. (…) Começam a ouvir-se os coros num murmúrio diluído. Estão mais perto. Vejo-os a andar. O que há nessa noite para os lados de Beja? Que vozes são essas? O que anda no ar que nem as estrelas brilham e os rostos dos homens estão chorando lágrimas quando passam ganhões e mineiros virados para o chão, a cantar, a cantar?...
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Vai Alta a Noite por Beja
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O céu, nesta noite escura, está plúmbeo e pesado, sem estrelas.
As labaredas das fogueiras enchem-no duma claridade sanguínea.
De quando em vez, um relâmpago lá para os lados da Serra de Ficalho.
Nesta noite de S. Pedro é o despique dos corais.
(…) Começam a ouvir-se os coros num murmúrio diluído.
Estão mais perto. Vejo-os a andar. Vêm num ritmo lento, de acordo com a cantilena mórbida, triste, desesperada, que é uma reza e uma queixa … Os de Peroguarda, de samarra e ceifões, trazem mulheres com rostos embiocados
… Antes tinham vindo os de Beja, de Serpa, de Cabeça Gorda, Vidigueira
… Todos em passo firme, cadenciado, tomando a peito a gravidade do canto.
Qual será o povo do mundo que seja capaz de aceitar tal compostura altiva?
Em toda a parte os cânticos populares são evasões dos sentidos.
Talvez para o oriente é que exista o mesmo ritual
… Os Baixo-Alentejanos cantam em prece para dentro deles mesmo. Não individualmente para se identificarem com os gorjeios duma só alma através duma só voz;
um grupo de 10, 20 ou 30 homens canta com a mesma unidade e coesão e tem os mesmos anseios colectivos.
Em qualquer povoado português pode mover-se um grupo de populares jogando cartas numa mesa, com copos de vinho a entreterem o espaço vazio das suas horas de trabalho.
No Baixo Alentejo vêem-se os homens em grupo, na mesma, a mesa e o vinho também lá está. Mas o grupo canta, canta, numa adega rodeada de potes ou nas soleiras dos pátios, quando as canículas apertam ou nas barracas das feitas sob os toldos das lonas, enquanto na extensão do acampamento colorido os gados relincham e o pó se levanta em nuvens até ao sol.
(…) Sortilégio, sonho, aventura, punhos cerrados e lágrimas secas — são as palavras que evoco quando oiço estes homens por esta noite que eu gostava que não tivesse fim.
Todos os ranchos cantam bem; todos … todos … todos …
Quando os corais se dispersam surge uma ronda de Beja a cantar no mesmo ritmo, na mesma cadência, na mesma ondulação mórbida.
Parecem uma procissão: parecem uma leva de condenados; parecem o cortejo proletário em greve, de braços caídos; parecem a multidão acompanhando um enterro; parecem grupo de filhos sem pai clamando pão para a boca; parecem viúvas da terra dum reino sem rei … São assim os cantares do Baixo Alentejo.
O tempo passado, evocação, o desejo absurdo desse gosto amargo de infelizes procurado, vivido, sofrido e cantado, constituem a definição concreta e o tema glosado — quase por assim dizer o motivo destes corais que sobem às nuvens e penetram no subsolo desta terra barrenta e clara, levada pelo vento Suão. Cantares de Beja!
O chão treme. A visão alucinante das caras dos ganhões com as bocas abertas em desesperos quietos clamam, clamam e reclamam em raivas, queixas e ais, sem saberem a causa, o fim e para que o fazem.
Anda no ar um dobre de sinos.
O sortilégio e encanto das coisas paradas amarra-nos à terra. Que felizes são os homens que cantam!
Os que não fazem consomem-se em nada. Estou em Beja nesta noite de melancolia e mistério. O fogo dos lumes é sonho das coisas terrenas subindo até às estrelas que nesta noite não brilham.
Que saudade há dentro de mim! Que saudade de tudo o que não fui e não sou, nem serei! Das ondas do mar que nunca passei, dos destinos de galhos secos, de poeiras das estradas, de vozes consumidas sem nunca se ouvirem …
O que há nessa noite para os lados de Beja? Que vozes são essas? O que anda no ar que nem as estrelas brilham e os rostos dos homens estão chorando lágrimas quando passam ganhões e mineiros virados para o chão, a cantar, a cantar?...
(Azinhal Abelho, 1949, in mensário das Casas do Povo,
6/40, págs. 12-13)
Fim do Texto