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O cortejo histórico e etnográfico

 

Assunto:
Cortejo Histórico e Etnográfico

A história por quem a fez…
As voltas que um cortejo dá...
O cortejo histórico e etnográfico
realizou-se em Serpa pela primeira vez em 1979, já lá vão 35 anos.
Organizado pela Comissão de Festas
da altura, pretendia representar quadros locais, mostrando a história, a etnografia e o património construído.
Atualmente da responsabilidade do município, começa a ser preparado com cerca de dois meses de antecedência,
período necessário para a montagem e pintura dos carros, a
construção de novos quadros, a preparação dos trajes, o empréstimo das
viaturas por particulares.
Com cerca de 700 participantes, entre figurantes, motoristas e equipa de trabalho, é hoje parte importante nas festas de
Serpa, chamariz de visitantes e orgulho de quem o organiza.
O Serpa Informação esteve à conversa com algumas das pessoas que trabalharam nas primeiras edições e desafiou-as a contar as suas memórias e a partilhar recordações.
Dulce Romão, 61 anos, aposentada “Fui parar ao cortejo da seguinte forma: o cortejo foi ideia do sr.
João Rocha, em 1979. (…) Ele teve a ideia do cortejo baseado talvez na terra dele, Viana do Castelo.
A ideia foi representar a etnografia de Serpa, e falou com o António Medeiro Palma, conhecido por
Sr. Palminha, que era funcionário da Casa do Povo e tinha a seu cargo o Rancho Coral e a parte etnográfica.
Era a pessoa indicada…
A Câmara não tinha trajes.
O primeiro ano que saiu, em 79, foi com roupas emprestadas, cada um deu o que pôde, e fez-se o cortejo.
Em 1980 foi o primeiro ano que saiu com roupas já adquiridas pela Câmara Municipal e o Sr.
Palminha foi o homem que disse como é que eram os trajes de Serpa, porque o Alentejo não é todo igual.
Nós aqui em Serpa sempre tivemos uma maneira muito diferente de vestir no trabalho do campo.
Mas o Sr. Palminha já tinha uma idade avançada e então sugeriu que lhe dessem uma pessoa mais nova que ele pudesse ensinar e que tivesse muito gosto, e fui eu (risos).
Comecei nos primeiros 4/5 anos, com o Sr. Palminha, e mais tarde ele adoeceu e faleceu.
O cortejo era formado por uma comissão de pessoas que tinham a sua profissão, a sua vida, fazíamos aquilo na desportiva, porque gostamos de ajudar, pela nossa terra.
Era dividido em dois, o histórico, que tinha à cabeça o professor João Mário Caldeira e o etnográfico.
Reuníamos depois as duas comissões para organizar o cortejo e interligar os quadros durante o percurso.
Mas na parte etnográfica eu estive sempre.
A Piedade (Gonçalves) nos primeiros anos pertenceu ao histórico, mas ela gostava era do etnográfico.
Ela foi o primeiro cartaz. Então passou a trabalhar comigo, e trabalhamos de gosto….
anos as duas. A Câmara não tinha a frota de carros que tem hoje.
Era no carro da Piedade que nós andávamos as duas a distribuir roupas pelas aldeias, íamos a Vila Nova, a Pias… em cada terra tínhamos uma pessoa para receber os trajes e vestir as pessoas.
Na altura, em Santa Iria, tínhamos uma adesão muito grande, porque vestiam no campo como nós aqui em Serpa.
(…) mulher do campo ia trabalhar de bota engraxada e chegava lá mudava para trabalhar, e é isso que me orgulha na minha etnografia.
(…) Inclusive fui aos armazéns do Chiado, antes de arderem, comprar tecidos que não havia cá, que deixaram de usar, como a chita, o cotim e a saragoça para fazer os fatos.
Entretanto veio a Fátima (Mestre), mas nessa altura já a Câmara fazia os cortejos com os funcionários.
Estive talvez até 91 ou 92.
Já estava cansada. Trabalhava, tinha duas filhas pequenas, era presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria, e só aguentava tudo porque tinha trinta e tal anos.
Mas nessa altura a Câmara já tinha outros meios e as bases estavam lançadas, os trajes estavam todos feitos, era só seguir o que lá estava, e acho que hoje estão muito bem entregues com a Ana Beja, ela tem tudo muito bem feito.
De vez em quando pede-me um conselho e eu vou lá.
A história por quem a fez... .
Abril 2015 7
Participei como figurante em 2012, a pedido do João Rocha, porque ele quis, como eu fui das primeiras, que no último ano que ele fez o cortejo eu lá estivesse. Mas pertencer já não, já não tenho pernas para isso.
O que custou mais foi o princípio, agora é seguir.”
Fátima Mestre, 61 anos, chefe de serviços de administração escolar da EPDRS “Fiz parte da organização do cortejo logo desde a 2ª ou 3ª edição, juntamente com a Dulce Romão, a Piedade Gonçalves, o Manuel José Pardal, o João Rocha… No primeiro ano a organização foi da Comissão de Festas.
Depois passou para a Câmara, e passou a ser feito com a ajuda dos funcionários...
(…) Gostei muito do cortejo, a primeira vez que vi fiquei deslumbrada (em 79).
Acho que houve dois ou três anos seguidos, não sei precisar bem (…) depois as pessoas começaram a dizer “outra vez o cortejo, já aborrece”… então houve um ano em que não se fez, e depois voltou a haver.
A partir daí houve todos os anos. Agora é que as pessoas dizem que o mais importante da festa é o cortejo.
Para fazerem o primeiro cortejo fizeram um estudo profundo sobre o assunto e andaram a contactar as pessoas, como é que andavam vestidas.
Quem fazia a pesquisa de como eram os fatos era o Sr. Palminha, diretor do Grupo Coral da Casa do Povo de Serpa.
Foram a Lisboa comprar os tecidos para fazer os fatos. Para além disso, do que a Dulce e a Piedade me transmitiam, e a minha mãe também me ensinou muita coisa sobre a etnografia de Serpa, esta não é igual em Pias, ou em Vila Nova.
Cada terra tem o seu uso. (…) Saíram logo muitos carros, julgo que saíram logo do património edificado a Igreja de Santa Maria,- feito pelo Manuel José Piroleira -, e o aqueduto.
E os figurantes, tantos figurantes, faziam fila para receber os fatos, agora é aquilo que se vê, uma carga de trabalhos.
E iam homens e mulheres, não era cá moços pequenos. Tenho pena de já não ter cabeça para nada, porque sempre gostei muito.
Até ao ano passado ainda estive lá na casa dos fatos, ajudando, já não fui foi lá abaixo organizar nada.
As pessoas às vezes não dão o valor devido ao cortejo porque nem lhes passa pela cabeça o trabalho que aquilo dá.
“ Juan Tejera, mais conhecido por João Passarinho, 73 anos, reformado, “mas ainda faz projetos de construção” “Inicialmente pertencia à Comissão de Festas. (…) Quando se começou a fazer o cortejo, o horário quase coincidia com a procissão, sempre havia aquela polémica porque podia tirar pessoas à parte religiosa; ao princípio houve um bocadinho de preocupação.
Comecei a trabalhar na confeção dos carros, mais na parte histórica, no património, em 1980.
Fazia o que faço agora. (…) Risco, serro, prego, pinto, ajudo a montar.
Umas vezes era eu que dava as ideias, outras eram eles que decidiam.
O Abade foi um vereador que era de Ficalho e que falou no Abade, e eu fiz o Abade, outros diziam, talvez a Igreja de Salvador, ou a zona das muralhas, onde está o aqueduto e tal, e fazia-se isso.
Eles diziam o que é que queriam e eu fazia. (…) O Zé Manuel Piroleira fez a Igreja de St.
Maria, e talvez mais alguns… entretanto houve carros que se foram estragando e foram sendo postos de parte, substituídos por carros novos de outros monumentos e outros motivos históricos.
Entretanto ele faleceu, e como eu já tinha entrado, comecei eu a fazer os carros.
O meu trabalho é fazer os carros novos, a montagem e a desmontagem são os carpinteiros que depois fazem.
Carros já fiz mais de 20, nem sei, não tenho ideia. Começo dois meses, um mês e tal antes a vir para aqui (estaleiro da autarquia), fazer os carros.
Fiquei satisfeito de ver o primeiro cortejo, e fico satisfeito de ver sair os carros novos, com gosto e de maneira a poder ser apreciado pelas pessoas. Acho que quem está fora, por estar afastado, e a maior parte só vem uma vez por ano, às vezes estão anos sem vir, ver o cortejo para esses, é capaz de lhe causar mais impacto.
Os de cá, pois, todos os anos o veem…” Piedade Gonçalves, de 57 anos, chefe de serviços de administração escolar da Abade Correia da Serra “Pertencíamos a um grupo que se juntou para organizar as festas, e depois aí, a par de outras tarefas, organizavamos bailes, variedades e outros eventos.
Pensámos em organizar o cortejo - foi ideia do ex-presidente, o João Rocha -, e então organizamos um grupo para tratar do cortejo.
Eu, o João Mário Caldeira, a Dulce Romão, o Sr.
Palminha, que era uma pessoa mais velha que estava ligada ao Rancho e à Casa do Povo - ele é que nos dava as dicas em relação à etnografia, como eram os fatos, arranjámos as fotografias através da revista, da Tradição.
Os primeiros fatos vieram da Casa do Povo, trabalhávamos em casões que nos emprestavam.
Pintávamos os carros, fazíamos tudo. Eu estava mais ligada à parte histórica, onde estava o professor João Mário, que era licenciado em História e gostava muito dessa área.
Preocupávamo-nos muito, quando íamos à procura de um rei, de cavaleiro ou de um mouro, tinha de ser alguém que tivesse algum perfil, fisionomicamente… era engraçado.
Esses fatos não havia na Casa do Povo, devem-se ter alugado, penso eu.
Lembro-me de termos feito acessórios para os romanos, fizemos os anéis, forramos sapatos daqueles que iam vestidos de reis, fizemos os guizos para os bobos, íamos assim aos pormenores todos.
Depois passou a ser mais fácil, começou-se a alugar muita coisa.
A princípio foram muito críticos, porque era uma coisa nova, não tinham ideia e achavam que seria uma palhaçada.
Da parte das freguesias também havia sempre muitas representações.
Não havia tantos carros, o cortejo era mais pequeno do que é atualmente, não havia tantos monumentos… lembro-me de fazermos as escadas de Santa Maria num casão lá ao pé da GNR.
O Piroleira desenhava os carros, o João Passarinho, também me lembro do engenheiro Veiga, de passarmos uma noite inteira pintando carros.
O Chico Mira também há muitos anos que pertence ao cortejo, na altura era figurante.
Mas tinha mais pessoas interessadas, a gente explicava e era mais fácil de cativar na altura.
E alguns de nós fazíamos e também participávamos. (…) O 1º ano é que foi o mais polémico.
A partir daí foi fácil, mas depois chegou um período em que as pessoas mais velhas tinham vergonha e os mais novos não tinham fatos à medida, foi quando se criaram fatos para se adaptarem aos mais jovens.
Acho que os mais velhos agora é que vão voltando outra vez.
No ano em que não houve estranharam, foi preciso não haver para as pessoas pensarem que o cortejo já faz parte da festa… mas nem me lembro em que ano é que não houve.
Era difícil arranjar figurantes, gastávamos o dinheiro nos fatos e depois não saiam. Fiz parte da organização uns 10 anos, depois fiquei um bocadinho farta do cortejo, durante tanto tempo fazendo isto aborreci-me, fiquei saturada do cortejo.
Voltei aí ao fim de trinta anos como figurante, mas não tenho responsabilidades.
Já fiz parte da comissão, já entrei no cortejo e já o vi como espetadora. A emoção quando se vai lá dentro é diferente, mas é sempre bom e emocionante. Serpa Informação .
história
Do 1.º de maio na República à atual terça-feira de Pascoela
O feriado da “laboriosa e democrata” Serpa
O feriado municipal de Serpa festeja-se na terça-feira de Pascoela, mas nem sempre foi assim.
Logo após a implantação da República começou por ser a 1 de maio.
Foi mudado depois para 20 de outubro.
Escolheu-se mais tarde o dia 27 de agosto e, em 1963, fixou-se a data atual.
A origem dos feriados municipais em Portugal recua a 1910, segundo o historiador Luís Reis Torgal.
Logo após a revolução republicana, em 12 de outubro, Teófilo Braga assina o decreto que permite às câmaras municipais “considerar feriado um dia por ano, escolhendo-o de entre os que representam as festas tradicionais e características do município” (decreto de 12/10/10, artigo 2.º).
A municipalidade de Serpa demorou alguns meses até deliberar que o feriado anual do concelho seria comemorado no “dia primeiro de Maio, data em que o operariado celebra a sua confraternização na esperança de conquistar ordeira e honestamente um futuro mais próspero e risonho” (ata da reunião de Câmara de 24/4/11, fl.
48v). A “laboriosa e democrata vila” de Serpa, nas palavras de António Ladislau Parreira (carta do próprio à Câmara, datada de 30 de outubro de 1910, a agradecer um voto de louvor), filho da terra, militar e figura proeminente do movimento revolucionário republicano, escolhia assim uma data de carácter político e social, numa clara homenagem ao Dia do Trabalhador.
A data manteve-se, mesmo com a ditadura fascista, até 1950.
Em setembro desse ano, em resposta a uma circular da Direcção Geral de Administração Política e Civil, que alertava para a necessidade de os feriados municipais serem fixados em “dias de festas tradicionais e características dos concelhos”, a Câmara de Serpa manteve a decisão de festejar o feriado no 1.º de maio, por considerar que “é um dia de festa tradicional” (ata da reunião de Câmara de 27/9/50, fl. 35v).
No entanto, logo na reunião seguinte, a municipalidade recuou e estabeleceu que o feriado municipal seria no dia 6 de junho, “data do nascimento do glorioso serpense abade Correia da Serra, ocorrida no ano de 1730” (ata da reunião de Câmara de 11/10/50, fl. 39v).
Essa data, contudo, segundo “informações superiores” não correspondia às condições da lei e, em janeiro de 1951, sob proposta do presidente da Câmara, José Pinto e Silva, foi escolhido o 20 de outubro, para recordar a “entrega de Serpa à Coroa portuguesa”, em 1295 (ata da reunião de Câmara de 17/1/51, fls. 74v e 75f).
Tal decisão foi aprovada pelo ministro do Interior e o feriado passou do 1.º de maio para 20 de outubro.
Mas o governo salazarista decidiu, no ano seguinte, extinguir os feriados municipais. Fundamentava que eles “não têm tradição apreciável” e, portanto, podiam “deixar de existir como regra, admitindo-se apenas a subsistência de alguns, poucos, que andem ligados a verdadeiras festas tradicionais e características dos concelhos” (decreto n.º 38 596, de 4/1/52, artigo 4.º). No ano seguinte, o município de Serpa resolveu pedir superiormente que o feriado municipal fosse restabelecido no dia 20 de outubro (ata da reunião de Câmara Postal sem data.
Em 1956, o jornal “Notícias de Serpa” anunciava que as festas da Páscoa apresentariam nesse ano “extraordinário brilho”, graças ao contributo do município nas ornamentações e iluminações à minhota que, “pela primeira vez, se verão em Serpa”
(ata da reunião de Câmara de 12/5/66, fls. 97 a 99).
Como nota final, recorde-se que Nossa Senhora de Guadalupe foi proclamada oficialmente padroeira do concelho de Serpa nos anos 40 do século XX, durante a presidência da Câmara de Eduardo Dezonne Fernandes de Oliveira.
de 22/4/53, fls. 108v e 109v).
No entanto, alguns meses depois, a própria autarquia entendeu que seria difícil ver aprovada essa data uma vez que nela “não se realizava no concelho nenhuma festa tradicional”.
O presidente da edilidade propôs então que fosse escolhido o 27 de agosto, por “ser um dos dias (o mais característico) da feira anual desta vila, a qual já se realiza desde os tempos mais recuados”
(ata da reunião de Câmara de 19/6/53, fls. 124v e 125f).
Dez anos depois, em 1963, o feriado municipal foi fixado na data em que hoje ocorre, ou seja, na terça-feira seguinte ao domingo de Páscoa.
Os considerandos foram os seguintes: “é na época da Páscoa que se realizam as maiores festividades do concelho; “essas festividades são já tradicionais no concelho, acorrendo a elas não só os seus habitantes, como também grande número de forasteiros”; “em face desse espírito tradicionalista cessam, na terça-feira seguinte ao domingo de Páscoa, todas as actividades, de forma a possibilitar a deslocação do maior número de pessoas ao lugar de S. Gens, onde existe a capela do mesmo nome, não só para acompanhar a procissão que nesse dia se realiza da parte da manhã, como também para assistir ao arraial que tem lugar da parte da tarde”
(ata da reunião de Câmara de 25/7/63, fl. 20v).
MJV
Fonte:
Serpa informação
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