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História de BejaBeja fica no alto de uma ondulação suave e domina até longe um largo espaço da peneplanície alentejana. O solo à volta é rico e apto para a sementeira do cereal. Onde cresce o pão junta-se gente, é regra nunca desmentida pela História. Logo, é certo que este lugar foi povoado desde época muito anterior à romana. Mas é realmente com os romanos que a cidade começa a desempenhar um importante papel histórico. O próprio nome da cidade, derivado de Pax Julia, recorda a pacificação da cidade, derivado de Pax Julia, recorda a pacificação das tribos da Lusitânia na época de Júlio César. São muitos na Europa os topónimos relacionados com César. Nem o calendário lhe escapou: o mês de Julho é o mês de Julio, como o mês de Agosto é o de Augusto, seu sucessor nas culminâncias do poder. Estudos referem que esse sucessor quis mudar o nome de Pax Julia para Pax Augusta. Como seria hoje o nome da Cidade se a mudança houvesse pegado? O alentejo foi uma região fortemente romanizada. Apresentando poucos obstáculos naturais, permitiu a construção de importantes vias terrestres, complementados pela navegabilidade dos rios Sado, Mira e Guadiana. A cidade de Beja deverá ter sido criada na época de Júlio César e o seu nome está ligado ao desejo dos governantes romanos de pacificarem o sul do actual território português, o que os leva a escolher para vários centros urbanos nomes onde surgem os termos Pax, Felicias e Liberalistas. Foi aliás em Beja que Júlio César firmou um tratado de paz com os lusitanos. Na nova cidade deverão ter sido instalados antigos militares que receberam parcelas de terra em redor do centro urbano. É provável que a cidade de Beja tenha sido cercada de muralhas logo desde a sua fundação. É também provável que se tenham construído termas, um forum, um teatro e outros edifícios típicos das urbes romanas. No entanto, os vestígios são quase inexistentes. É mesmo assim possível fazer uma aproximação do traçado das muralhas romanas. Nelas se abriam várias portas, três delas da época de Augusto; a porta de Mértola, a porta de Évora e a porta da rua do Dr. Brito Camacho. O forum situar-se-ia, provavelmente, na zona hoje ocupada pelo largo dos Prazeres e o Covento da Conceição, a Praça da República e as ruas dos Escudeiros e do Sembrano. Em 1939, ao ser feita uma escavação na Praça da República para ser construído um reservatório de água, foram descobertas ruínas de um tempo que pôde ser sumariamente estudado por Abel Viana. Seriam os restos de um templo semelhante ao de Évora, com dimensões ligeiramente superiores. Pouco conhecemos das residências romanas em Beja. A zona mais rica da cidade deverá ocupar a metade ocidental da urbe. Aí se encontrariam os grandes monumentos e os bairros luxuosos. A encosta da zona oriental seria a área destinada aos bairros populares, à indústria e ao comércio. No campo económico, a cidade de Beja desempenhou um papel relevante. Na época de Augusto era uma das duas cidades no actual território português que podia cunhar moeda - a outra era Évora (Ebora). As moedas cunhadas em Beja têm a efígie do imperador e, no reverso, a legenda Pax IVL. Sede do Convento Jurídico Pacense, Beja era, na prática, a capital do Sul de Portugal. Por ela passavam vias que conduziam ao Algarve, a Évora, a Lisboa e a Sevilha. Para atravessar os cursos de água, várias pontes foram construídas, como a ponte da ribeira de Cardeira, nas proximidades da cidade. É certo que na época romana Beja teve um papel muito importante, superior talvez ao de Évora, pois que era Beja que se situava a capital de um dos grandes distritos administrativos em que a Lusitânia se dividia no tempo de Plínio. Os outros eram Mérida e Scalabis, actual Santarém. O abastecimento de água a uma população numerosa era feito por aqueduto de que já só há vestígios. Com as invasões bárbaras, a terra sofreu muito, mas ainda manteve o relevo que justificava ser sede de uma diocese. Dois dos bispos ficaram com fama não só de santos mas também de sábios: Santo Aprigio e Isidoro Pacense, que além de bispo, foi historiador. A cidade caiu no poder dos mouros em 715, mas depois disso muitas vezes mudou de mão. Treze vezes alternou de senhor. E cada mudança era uma onda de sangue e de morte. Só em 1232, já no tempo de D. Sancho II, entrou definitivamente na posse cristã. Mas nessa altura pouco mais seria que ruínas entre terras semidesertas. Mas a recuperação não tardou. Em 1253, o Rei D. Afonso III reedificou-lhe as muralhas. No ano seguinte, concedeu foral. D. Dinis mandou construir a soberba Torre de Menagem, que é, ainda agora, o mais notável monumento da cidade, e voltou a conceder foral aos moradores em 1291.
Seriam trinetos desses primeiros moradores os homens-bons que figuram na famosa descrição da crónica de Fernão Lopes. Era em 1383 e andavam no ar rumores de acontecimentos graves. Chegaram mensageiros de Lisboa portadores de notícias urgentes. Os homens-bons reuniram-se no adro de Santa Maria e tentaram manter entre si o segredo das novas acabadas de chegar. À volta do adro foi-se comprimindo o povo, primeiro curioso, depois impaciente. Até que um tal Gonçalo Ovelheiro deu o grito da revolta: “Não há aí ninguém que vá saber o que se passa?”, e saltou ele próprio, de espada em punho, para o meio dos notáveis. A cólera popular explodiu então em toda a sua força: “Porventura esta vila se há-de manter de quatro ou cinco que vós aqui sois? Certamente que não, mas de todos nós que aqui moramos!” As notícias davam conta da revolução de Lisboa e perguntavam de que lado queria Beja ficar: se pelo Mestre de Avis, por Portugal, se pelo bando dos grandes e da odiana rainha. Foi assim que o Mestre se viu aclamado pelos de Beja, eo povo assumiu o governo da vila. A vastidão da planície e as boas condições climatéricas imprimiram aos povos que foram habitando a região, um forte pendor pela terra e pela agricultura. Ainda hoje, a azáfama da população dividi-se entre as actividades agrícolas e a área da prestação de serviços, possuindo os habitantes desta região um prazer especial em receber os visitantes que ocorrem, em qualquer altura do ano, mas sobretudo, durante a Primavera e Outono, quando o clima é mais ameno. Beja, a velha Pax Julia, é uma cidade carregada de história. Foi rica sob o domínio romano, como provam as peças que se encontram no Museu Rainha D. Leonor ou os belos arcos das portas de Avis e de Évora. A civilização romana morre e sobre os séculos que se seguem fala-nos o núcleo visigótico da igreja de Sto. Amaro: aqui encontramos testemunhos de um cristianismo antigo num dos raros exemplos de arquitectura romântica do sul do país. Mas em breve a poesia chegava ao fim. Após várias tentativas, Beja é definitivamente conquistada pelos cristãos em 1162 e uma nova era se inicia. Constroem-se igrejas: a ermida de Sto. André, que dizem celebrar a vitória sobre os mouros; Sto. Amaro, a antiga Nossa Sra. da Graça; Sta Maria da Feira, possivelmente no local da antiga mesquita, D. Dinis edifica a magnifica Torre de Menagem que ainda hoje se ergue sobre a planície e marca a imagem da cidade. Já na época das Descobertas, os infantes de Beja fundam o convento de Nossa Sra. da Conceição, uma jóia do gótico e manuelino, que foi o mais rico do Alentejo. Aqui freiras das mais nobres famílias de Portugal criaram maravilhosos doces que ainda hoje podemos apreciar. Este convento foi ainda palco da célebre paixão de Mariana Alcoforado pelo cavaleiro de Chamily, que ficou imortalizada nas famosas Cartas Portuguesas. Em meados do século XX, era esta a descrição então feita de Beja:“Vista de fora, a cidade já nos mostra o arbitrário e confuso embrechado de moradias, a linha tortuosa das antigas vielas. A quem a percorre atentamente, não passarão despercebidas as muitas heranças das gentes que sucessivamente a prearam, ou pacificamente a houveram de seus maiores. Do seu passado despercebidas as muitas heranças das gentes que sucessivamente a prearam, ou pacificamente a houveram de seus maiores. Do seu passado falam expressivamente as pedras, cuja memória é mais duradoira que a dos homens... Beja, com seu ar de vestusta e nobre compostura; com as vielas estreitas dos bairros mais velhinhos; com as quadrelas da muralha mostrando a sua rudeza secular, entre o moderno casario; com algumas portadas ogivais perdidas em muros que são de nossos dias; com a sua esbelta Torre de Menagem, ameada no alto, rodeada de balcões assentes em solidíssima cachorrada; com as agulhas da Conceição, de tão sugestivo e romântico passado, tem uma grandeza e uma beleza, a que o visitante não pode ser insensível. Como aqueles anciães em cujo corpo se conservam ainda as cicatrizes gloriosas de mil combates, também nela os séculos deixaram profundos sinais da sua passagem. Urbe romana, alcácer de moiros, antiga corte de príncipes, piedoso assento de clausuras famosas, solar de nobres e de ricos lavradores, Beja ainda hoje guarda indeléveis vestígios de todo este longo e trabalhoso passado. Os seus velhos pergaminhos dão-lhe origem obscura e longínqua. Mas dão-lhe também uma nobreza apurada em longos séculos de história, e aquele mesmo aspecto venerável que tinham os próceres de velhas linhagens, herdeiros dum nome ilustre e duma ilustre tradição! A vida que passa foi deixando nela os traços inevitáveis do seu contacto, e a cidade acompanhou a marcha imperiosa do tempo, sem se deter nem claudicar. Subúrbios modernos, prolongamentos extra-muros com moradias ao gosto de hoje, traçados largos de arruamentos e de desafogadas perpectivas citadinas, mostram que a velha Pax Julia soube também não perder o contacto juvenil com o presente, e antever as exigências do futuro. Centro natural de uma vastíssima região de culturas cerealíferas que enxerga à sua volta, como de um mirante erguido para mais fácil vigilância de senhor e dono, a cidade é hoje – e deve-o ter sido sempre – quartel e assento dessas vigorosas energias do trabalho da terra, celeiro e tulha duma riqueza que se refaz e multiplica, com prodigiosa renovação. Quem a percorre com vagar e olhos atentos facilmente encontra nela certos recantos inspiradores de simpatia. Há ruas estreitas que parecem segredar discretamente uma velha história. Janelas de cunhal que são relíquias de palácios que tiveram um passado brilhante, e foram moradia de gente nobre e abastada. Praçazinhas sossegadas e provincianas, com arvoredo em volta e uns bancos à sombra, donde apetece observar a fisionomia das casas humildes, que parecem adormecidas na modorra da tarde. Velhos panos de muralha por onde os séculos passaram, e em cujas brechas vestustas nasceram dois ramos de figueira, como um protesto triunfante da natureza. Portais antigos que os acasos da fortuna vieram encastar em certos muros, com anacrónica incoerência, e em cujas pedras parece que palpita ainda a alma erradia dos lavrantes que fizeram delas uma jóia. E nomes de ruas que são uma crónica inteira da antiga vida de burgo! Chaminés que fumegam; portas com seu postigo encostado e singelo; varandinhas de tijolo vasado; à sombra de buganvillas; fachadas assimétricas onde os vãos parecem que sorriem a quem passa; grossos beiras que apontam sobre a parede fronteira os canos agressivos dos “telhoes”; bruscos cotovelos de vielas; portais de templos, calados e contemplativos; - tudo isto e o mais que for descobrindo o peregrino de boa vontade, dão à cidade uma fisionomia que não será muito bela, nem muito altiva, nem muito rica- mas que seguramente há-de impor-se ao seu espírito, com graça insinuante e persuasiva.” Notáveis de Beja Na página em que se relata a história de Beja, deixamos indicados vários nomes de árabes, uns de certa, outros de provável origem bejense, que se tornaram intelectualmente notáveis. Aqui nos referimos a alguns outros naturais de Beja, dos mais eminentes e pertencentes propriamente à cultura nacional. João Afonso de Beja, também conhecido por João Afonso de Braga, por ali ter vivido muitos anos. Nasceu em Beja, em 1510, e faleceu na capital minhota a 15/8/1585. Filho de Diogo Gonçalves Sanches da Gama, castelhano e cavaleiro da ordem de São Tiago, e de João Afonso de Beja, vedor da casa do Infante D. Luís. Formou-se em Direito Canónico e foi lente desta faculdade em Lisboa, antes da Universidade voltar para Coimbra. Está considerado como o maior entre os nossos letrados do seu tempo. Exerceu os cargos de desembargador da Casa de Suplicação e de prelado interino no bispado do Algarve e no arcebispado de Braga. Diogo Barbosa Machado celebra-o nas “Memórias para a História de El-Rei D. Sebastião”. Além do célebre parecer sobre a bula de Pio IV, do subsídio de 200.000 cruzados, tirados em cinco anos nas rendas eclesiásticas, para subsídio da guerra contra os infiéis, escreveu uma “Oração sobre a primazia de Braga recitada no seu 4º Concílio”, e traduziu uma das comédias de Terêncio. João Afonso de Beja, avô do precedente. Doutor em jurisprudência, Comendador de Santa Maria de Beja e vedor da Casa do Infante D.Luís. Acompanhou em 1513, o Duque de Bragança, D. Jaime, na expedição a Azamor. Escreveu. “Primeira parte de passatempo e sestas do Doutor João Afonso de Beja, o qual consta de 8 diálogos”. D. Frei Amador Arraes, frade carmelita e doutor em Teologia pela Universidade de Coimbra. Foi pregador de D. Sebastião, coadjutor e esmoler mor do Cardeal D. Henrique e bispo de Tripoli. Filipe II elegeu-o bispo de Portalegre, dignidade que depois resignou. Publicou uma obra que se tornou célebre: “Diálogos de Dom Frei Amador Arráiz bispo de Portalegre” (impressa em Coimbra no ano de 1589). Jacinto Freire de Andrade, bacharel em Cânones pela Universidade de Coimbra. Nasceu em 1597 e faleceu em Lisboa a 13/5/1657. Foi poeta e prosador. Escreveu a “Vida de D. João de Castro” e ainda outras obras, estas perdidas em um incêndio de sua casa. Diogo de Gouveia, foi reitor da Universidade de Paris, entre 1500 e 1507. Em 1520 tomou posse do Colégio de Santa Bárbara, na capital de França, o qual reiterou até 1533. Entre muitos outros que se tornaram célebres, foram seus discípulos Santo Inácio de Loiola e São Francisco Xavier. Em 1553 passou a dirigir a faculdade de Teologia. No ano de 1556 regressou a Lisboa, onde faleceu a 8/7/1557. António de Gouveia, nasceu em Beja no 1505 e faleceu em Turim, em 1565. Estudou em Beja, com o seu avô, até aos 22 anos de idade. Em 1527 foi para Paris, juntar-se ao tio, Diogo de Gouveia. Ali se doutorou em Artes, no ano de 1532. Exerceu o professorado no Colégio de Santa Bárbara (Paris) e no de Guiana (Bordéus). Foi depois para Tolosa, Avinhão e Lião, onde mais a fundo se dedicou ao estudo das Humanidades e, em seguida, às ciências jurídicas, em especial ao Direito Romano. Regressou ao Colégio de Santa Bárbara em 1541, onde regeu Filosofia durante alguns anos. Ensinou Direito, desde 1548 a 1556, em Tolosa, Cahors, Valência (Delfinado) e Grenoble. Henrique II, de França, em 1558, felo conselheiro do parlamento provincial. Em 1562, escapando-se a infundadas suspeitas de que foi alvo em matéria de fé, refugiou-se em Saboia, na corte de Manuel Felisberto, onde, além de ter sido conselheiro e ter exercido outros elevados cargos, foi professor da universidade de Mondovi. A sua obra publicada é extensa e notabilíssima. André de Gouveia, nasceu em 1497 e morreu 9/6/1548. Sobrinho materno de Diogo de Gouveia e, como ele, humanista célebre. Estudou em Paris, sob a direcção do tio. Foi reitor do Colégio de Santa Bárbara, do qual fora aluno. Em 1534 passou a dirigir o Colégio de Guiana, em Bordéus e, depois de 1536, ensinou nos colégios de Genebra, Neufchâtel, Lausana e La Rive. No ano de 1548, a pedido de D. João III, fundou e organizou em Coimbra o Colégio das Artes, falecendo pouco depois. Grande latinista e orador, André de Gouveia foi o mais famoso reitor universitário da sua época. Debaixo da sua orientação, ensinaram muitos dos mais notáveis humanistas daquele tempo. Diogo Fernandes de Beja, um dos mais notáveis capitães da Índia, onde começou a servir sob as ordens de D. Afonso de Albuquerque. Entre as numerosas e importantes missões deque foi incumbido, contam-se o socorro prestado à infeliz expedição do marechal D. Fernando Coutinho, a reconstrução do castelo de Cintacora, a evacuação secreta dos portugueses de Goa, quando Albuquerque teve de a abandonar; a construção da fortaleza de Socotorá, etc., e tomou parte na segunda tomada de Goa, na segunda expedição a Ormus e em outras acções militares, sendo gravemente ferido de bala no assalto de Adem. Após outras importantes e arriscadas empresas, morreu de uma bala, em 5/9/1551, na guerra contra o rei de Cambaia. Bento Gil, formado em Direito pela Universidade de Coimbra e advogado em Lisboa. Deixou três obras de assunto sacro, e outras de Jurisprudência que nunca se publicaram. Faleceu em Lisboa, a 4/5/1623. José Agostinho de Macedo, nasceu no ano de 1761 e faleceu em Lisboa, no ano de 1832. Apesar dos seus muitos defeitos, foi o mais talentoso escritor do seu tempo, notável sobretudo nos seus opúsculos de crítica, sátiras e cartas. D. Francisco Alexandre Lobo, lente de Teologia em Coimbra e, depois bispo de Viseu. O principal de sua obra consta de “Resumo da História do Antigo Testamento”, as Memórias sobre Camões, Frei Luís de Sousa e Padre António Vieira, e três volumes publicados postumamente com o título de “Obras de D. Francisco Alexandre Lobo, bispo de Viseu”. Faleceu em 9/9/1844. Félix Caetano da Silva, nasceu em Beja em 30/11/1740, e aqui exercia o ofício de tabelião ainda no ano de 1809. Pertenceu ao grupo de estudiosos congregados em torno de Cenáculo, devendo-se porém notar que as suas investigações de história local começaram anteriormente à vinda para Beja daquele ilustre prelado. Deixou vários manuscritos relativos à sua terra natal, entre os quais o intitulado “História das antiguidades da Cidade de Beja”. Rainha Dona Leonor, não se conhece documento coevo que confirme a presunção geral de que Dona Leonor nasceu em Beja. Manuel Caetano de Sousa, na “História Genealógica da Casa Real Portuguesa”, dá-a como nascida a 2 de Maio de 1458, sem indicar terra de naturalidade. Frei Jorge de São Paulo, na sua “História da Rainha D. Leonor e da Fundação do Hospital das Caldas”, escrita cerca de duzentos anos depois (1656), diz que ela nasceu em Beja, a 8 de Dezembro do mesmo ano. Os demais escritores, todos modernos, seguem a data apontada por D. Manuel Caetano de Sousa, e afirmam o nascimento em Beja, sem declaração da fonte que os autoriza. Pelo que se conhece da vida de D. Fernando e de Dona Brites, todavia, depreende-se a probabilidade dos Infantes, naquele ano de 1458, terem permanecido em Beja, dando, por isso, foros de verdade à asserção de Frei Jorge. Mariana Alcoforado, nasceu a 22 de Abril de 1640, falecendo a 8 de Julho de 1723. Entrou para o convento da Conceição em 2 de Janeiro de 1651, como candidata ao noviciado.Durante a sua longa existência de professa, exerceu, por muitos anos, os cargos de vice-abadessa e escrivã da comunidade. Seu nome tornou-se célebre pela atribuição que lhe é feita da autoria das Lettres portugaises, publicadas em Paris, no ano de 1649, e apresentadas como pela freira dirigidas ao Marquês de Chamily. Desta cidade ou do seu concelho foram ainda o romancista Manuel Ribeiro (nascido na freguesia de Albernoa), e os heróicos capitães, Sanches de Miranda, companheiro de Mousinho no feito de Chaimite, e João Francisco de Sousa, morto em África, na guerra de 1914-18. Os Habitantes Não seria fácil descortinar de que mesclas complicadas e de que antigas heranças obscuras, se compõe o sangue da gente que por aqui vive. Mais do que elas, talvez a terra tivesse moldado o feitio moral e a corpórea feição do habitante. E numa e noutra dessas caracteristicas é ainda a terra que parece ter dito a última palavra. A versão bíblica da origem do homem feito de barro, à semelhança de Deus dir-se-ia assentar plenamente naqueles que a Providência e o andar dos tempos puseram sobre este chão, tão conformes com ele e tao de sua substância que não será atilado nem compreensível separá-los e olhá-los de per si - o homem e a terra. Como em certos retratos em que a maneira do pintor dispõe fundos de paisagem para assento da figura, também aqui, para retratar o habitante e entender-lhe o «claro-escuro» das feições, será útil vê-lo sobre a terra que é seu natural elemento e sua eterna preocupação. Por estes sítios. a vida animal e a vegetativa têm as mesmas razões, o mesmo alimento um ambiente comum. O homem vive da terra numa dependência directa e numa estreita familiaridade. Prende-o a ela, não apenas a tirania do trabalho, mas uma cegueira invencivel e sagrada! De pequeno, habituou o corpo a debruçar-se sobre o chão, mondando nos regos, ou sachando. Quando cresceu aprendeu a ceifar e a lavrar. Com uma podoa e um machado ensinaram-lhe a limpeza do arvoredo, o corte do mato, o desbaste do montado mais denso. Viu como se crestava uma colmeia. como se punha uma aiveca nova num arado. como se carregava um carro de trigo. Na eira, debulhou, padejou, deitou à maré e limpou. Com uma charrua e uma parelha, fez sobre a terra um rego que tem um quilómetro e que é direito e aprumado, como se tivesse sido feito à régua! E desde o primeiro entendimento compreendeu como uma herança tradicional e augusta que a terra é a mãe venerável, fonte de todas as dádivas, origem e fim de todas as suas cobiças, eterno empenho de todas as suas canseiras... Isto criou-lhe uma fisionomia que se casa perfeitamente com o chão que pisa e com a natureza que o cerca. Crestado do sol, meão e seco, o homem é por aqui, em geral, enxuto de corpo e de membros, de olhos escuros e profundos, olheirento e de descorada tez. Cabelos castanhos ou pretos. Os ruivos e loiros - que os há poucos acusam estranhas e longínquas ancestralidades, que se perdem no tempo. A mulher é de pequena estatura, multas vezes cheia de formas, mas mais correntemente maneira e delgada. Multas têm belos olhos profundos e sombrios, boca carnuda e expressiva, cabelo anelado e farto. Feitio esquivo têm atribuído alguns à mulher alentejana. Corrija-se esta crença vendo-as à tarde, em ranchos, vindas da monda ou da ceifa, dando troco fácil e pronto aos gracejadores que topam pelas estradas. Homem e mulher são sóbrios. 0 «avio» que um e outro levam para um dia inteiro de trabalho, mal pode contentar qualquer que não seja de muito comer. Nem os jornais dão para grande coisa, nem é uso levar para o campo mais que um frugalíssimo repasto de pão e conduto. O alentejano é sofredor e pacífico. Não o de seu natural brigão, nem provador. As grandes desordens colectivas, que envolvem povoações Intelias, não são um produto da planície. Depois do trabalho, ou terminadas as grandes fainas periódicas do campo, o alentejano canta em coro. Nesta natural inclinação do espírito, ingénita e latente, homens e mulheres unem-se na mesma suave harmonia. Quem não canta, junta-se em grupo para escutar. Diz-se que o homem no Alentejo é pouco religioso. Na massa dos fieis que concorrem às missas das freguesias aldeãs, só uma ínfima parte é do povo. As grandes romarias da Província - a Sr.a de Aires (a par de Viana) e a Sr.a das Relíquias (ao pé da Vidigueira) - caíram inteiramente em desuso. E contudo, ainda há alguns anos apenas, qualquer delas movia em toda a região uma verdadeira onda de peregrinos, vindos em carros, a cavalo e a pé, para assistir às cerimônias religiosas e aos folguedos festivos em honra da Virgem. O homem do campo trabalha com afinco e com paciente esforço. Nas grandes ceifas, sob a tortura do sol e da luz, sem o abrigo de uma sombra, atira-se à luta com verdadeiro espírito de sacrifício. Mesmo no trabalho. No Verão, é o clima emoliente que lhe gasta uma das energias. Os derradeiros esforços para colher e arrecadar aquilo que a terra deu são uma verdadeira batalha inclemente e torturada! O alentejano não emigra. O seu apego à terra fá-lo suportar a penúria das épocas de forçada paralisação nas fainas agrícolas, e ainda hão aprendeu a buscar em paragens estranhas o trabalho que lhe falta. Existe uma opinião (mais literária que analítica) que faz dele um ser bisonho e pouco comunicativo. Foram os seus hábitos simplistas, de lavrador e de pastor, que lhe criaram uma alma habituada à solidão, à imensidade da planura sem eco, aos intérminos montados onde se caminha horas a fio. Afez-se a um comércio mudo, mais do espírito do que da voz, com a natureza que o cerca. Aprendeu a escutar as vozes do campo. As esquilas do gado, o ladrar dos rafeiros, o susurro do vento na frança das azinheiras; são para ele ruidos familiares o únicos, às vezes. Mas o seu espírito é receptivo e sensível à grandeza solene da planície. E ela o fez assim concentrado e recolhido, sóbrio de gestos e de palavras... Os Trajos Nesta matéria muito havia que lamentar se falássemos de tudo o que a introdução viciosa dos modernos hábitos, pouco a pouco, perverteu nos tradicionais costumes do povo. Deixemos em silencio esta sucessiva decadência, este crescente dos incaracterísticos atavios que puseram de parte trajos regionais do mais típico sabor alentejano. Nem cabe na índole desta publicação o bosquejo retrospectivo da história dos trajos desaparecidos, o que seria tarefa longa e despropositada. O que resta-bem pouco, diga-se a verdade, ainda pode caracterizar usos Inconfundíveis de uma vida que tem profundas raizes na terra, e dela recebe mantença e carácter. E, se uma prudente e bem ordenada propaganda pudesse fazer compreender às povoações rurais da província, qual o interesse que haveria em manter viva a tradição dos seus antigos trajos regionais e o gasto preferente dos tecidos populares (a saragoça, o briche o surrobeco), prestar-se-ia um bom serviço de efectivo interesse nacional, à gente do campo. Desaparecido quase completamente do uso corrente o antigo «chapéu braguès» o homem e a mulher no Alentejo deram em copiar o uso ralano de uns chapéus de aba direita e copa tronco-cónica, que são uma introdução de além fronteiras. A jaqueta ou «véstia» que ainda há 40 anos era de uso comum, há muito que começou a substituir-se por outra indumentária com ressalhos citadinos e pretendidos ares civilizados. Nas povoações rurais mais distantes da capital da província, ainda o seu uso conserva como que uma tradicional ligação às antigas costumeiras. Tem as algibeiras enviezadas, e botões no canhão da manga. É curta pela cintura, deixando a descoberto a cinta de seda para conchego da calça. As camisas ou são brancas ou de riscadinho. Nem gravata nem passadores para apertar o colarinho afogado. Calça justa, de cotim ou de tecido caseiro. A antiga calça de «boca de sino» começa desaparecendo dos usos provincianos. No Inverno, os trajos da gente do campo conservam um carácter pastoril que lhe vem da sua intima ligação com a terra. Os «pelicos e os ceifões», feitos de pele de borrego, orlados de saragoça, com botões metálicos e tiras de cabeça são um caracteristico traço de indumentária que os modernos costumes ainda não conseguiram destronar, porque em seu favor depõem a excelência do agasalho que prestam e a economia do seu custo e duração. Como defesa contra o mato como abrigo para as chuvas do Inverno como conforto contra o frio, essas rudimentares coberturas de pele, tão vulgarizadas na gente do campo, são afinal um admirável achado, de simplicidade e de engenhosa apropriação. O lavrador rico usa às vezes os ceifões pelos mesmos motivos. Mas usa-o também, fora do governo da sua casa, como orgulhoso distintivo da sua condição. Há-os de peles finas, vistosamente pespontados na cinta, com lindos botões amarelos e passadores de cabedal vasado e ornamentado. A mulher, no trabalho, ainda conserva certos hábitos de vestuário que são mais o característico das fainas do campo, do que observância tradicional de usos de indumentária pouco a pouco perdidos. A mondadeira e a ceifeira alentejanas ainda preferem as botas de canos, de bezerro, atacadas pela perna acima. Se as não têm, calçam sapatos cardados, de cabedal crú, próprios para marchar sobre os regos ainda húmidos ou sobre os torrões escaldados no tempo da ceifa. As saias prendem-se à perna formando uma espécie de calções que deixam os movimentos livres e adequados ao trabalho que se executa. Os lenços de ramagem resguardam a cabeça e as faces e às vezes a boca, num rebuço de característico aspecto. Sobre a cabeça usa-se o chapéu de copa alta e abas direitas, que os usos fronteiriços vulgarizaram em grande parte do Alentejo. Na fita do chapéu, com feminina garridice, prende-se tiro molho de espigas maduras ou de flores silvestres. A gente de mais idade ainda usa chaile. As raparigas já começam desdenhando deste lindíssimo atavio femenino, tão conforme com o clima e tão naturalmente realçador das graças da mulher. Aberto, caindo quase dos ombros, e apanhado com uma das mãos na cintura descobrindo o busto (Moura); dobrado sobre o braço, de cadilhos pendentes; erguido até à boca e bem cingido no Inverno; posto pela cabeça e fazendo o rebuço da cara, deixando apenas ver os olhos, em sinal de luto ou de desgosto o chaile alentejano ainda é hoje um dos mais típicos elementos do vestuário feminino, e uma das mais graciosas peças da sua indumentária. Quanto ao próprio trajo da mulher do campo, fora das fainas rurais, ele copia já, com servilismo, os hábitos introduzidos em cada terra por aquelas que se crêem mais civilizadas, só porque o jornal de modas lhes ensina as mais absurdas e incaracterísticas inovações. Deploremos este crescente esquecimento das antigas tradições! E, se perdidas estas, as substituísse a introdução de outros hábitos racionais, mais ou mais úteis, os lamentos seriam caturrices sem razão.
Mas deram-nos, em troca do pitoresco aspecto das antigas mudanças a mais vil das imitações
pseudo-civilizadas.
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